SOBRE UVAS, VINHOS E HISTÓRIA... A FILOXERA


20 ago 2015 às 17h45


A PRAGA QUE DIZIMOU OS VINHEDOS DA EUROPA NO SÉCULO 19

Como nos textos do BLOG eu discorro sobre a história e o desenvolvimento das regiões vinícolas, acho importante narrar sobre a Filoxera, uma praga que dizimou mais de 60% de todos os vinhedos da Europa, na segunda metade do século 19.

 
Acredita-se que tenha chegado ao continente europeu por volta de 1853, vinda possivelmente dos EUA, trazida através de plantas ornamentais.
 
O primeiro lugar da Europa que acusou a praga foi a antiga região de Languedoc, próximo das cidades de Toulouse e Montepellier, a leste do Rio Rhone, em 1863.
 
Foi o biólogo-entomologista Jules-Emile Planchon que descobriu e identificou a Filoxera, um pulgão, um inseto, com ciclo de vida complexo, que sugava as raízes das cepas, fazendo-as murcharem.
 
A praga se espalhou para outras regiões da França.
 
Em 1878 foi identificada na Borgonha, 1880 em Bordeaux e 1894 em Champagne.
 
Em 1865 foi identificada em Portugal, na região do Douro, em 1871 na Suíça, em 1874 na Alemanha, em 1875 na Áustria, em 1877 na Espanha e em 1879 na Itália.
 
A praga atingiu ainda muitos outros países de todo o mundo.
 
Em vinhedos plantados em regiões arenosas, como Colares próximo de Sintra em Portugal e algumas outras da Espanha e Austrália, a filoxera teve dificuldade de penetrar nas raízes.
 
Assim como na ilha de Santorini na Grécia, cujo solo é formado por matéria vulcânica, os vinhedos foram preservados.



No início, os agricultores começaram a tentar resolver com sapos, aves, depois produtos químicos e, por fim, pesticidas, mas, sem sucesso.
 
Após 1870, os biólogos Leo Laliman e Gaston Basille sugeriram que a melhor solução seria arrancar todos os vinhedos e plantar novas cepas.
 
Recomendaram que deveriam utilizar troncos/cepas americanas, que já haviam se mostrado resistentes à praga.
 
Como houve a princípio uma resistência dos viticultores preocupados com a manutenção das castas das uvas, sugeriram que se utilizassem os troncos americanos como “cavalos” e os enxertos dos próprios vinhedos.
 
A filoxera atua só nas raízes.
 
E assim foi feito em toda a Europa. A grande maioria dos vinhedos atingidos foi arrancada e replantada com cepas vindas dos EUA.
 
Para a preservação das castas, cada região fez então os enxertos de acordo com suas culturas e tradições.
 
Este período foi muito difícil principalmente para aqueles países, como França e Itália, que tinham no vinho uma grande parcela da sua economia.
 
A Filoxera continuou atacando vinhedos em todo o mundo nos anos seguintes.
 
Nos anos 50, voltou a atacar vinhedos na Califórnia.
 
Ela está ainda ativa, e sem uma solução definitiva.



O Chile é um dos poucos países preservados pela sua própria geografia. Ao norte o Atacama, ao sul as Geleiras, ao leste a Cordilheira dos Andes e a oeste o Oceano Pacífico.
 
Os controles de entrada de alimentos pelos aeroportos, pelas estradas e pelos portos do Chile são muito rígidos.
 

O viticultores de todo mundo estão permanentemente atentos.

  
Em visita a uma vinícola na Borgonha, em um momento de descontração falei:
 
“Quer dizer que o vinho que vocês produzem é com cepa americana!”
 
Respondeu sorrindo: “O tronco é americano, mas o enxerto, que identifica a casta da uva, e o que realmente conta, é francês!”
 

Foi neste período que a casta Carménère desapareceu.
 
Em 1994 no Chile, na vinícola Viña del Carmen, o francês Jean Michel Boursiquot, graduado em Engenharia Genética, percebeu que em algumas cepas de casta Merlot as uvas demoravam um pouco mais para amadurecer. Após estudos genéticos,ele concluiu que se tratava na verdade da casta Carménère de Bordeaux, que havia desaparecido.
 
Hoje no Chile é uma das castas mais apreciadas, inclusive por mim.
 
Em Bordeaux, algumas vinícolas já estão produzindo vinhos incluindo a casta Carménère em seu blend.


   
Alguns agricultores da França estão estudando a possibilidade de utilizartroncos locais, eliminando os enxertos.
 
Acreditam que possam produzir um vinho com a qualidade de antes da filoxera.
 
O problema é o risco. Não há certeza de que vale a pena.


 
Estou à disposição para dúvidas ou dicas: miltonassumpcao@terra.com.br

  
Vinhedos no Outono – Saint Emilion, BordeauxVinhedos na Vinícola Siaurac – Neac, Bordeaux
   

Folhas atingidas pela filoxera

Pulgão causador da filoxera

  
Cachos de uvas contaminados

Vinhedos abandonados - há muitos em toda Europa

   

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