SOBRE UVAS, VINHOS E HISTÓRIA... CIDADES HISTÓRICAS NA BORGONHA


03 ago 2015 às 11h57


Nos posts de Chablis e Beaune, falei que seria ideal programar uma viagem para esta região combinando visitas também a Épernay e Troyes na região de Champagne, e algumas cidades históricas da Borgonha.
 
Assim, além de conhecer as regiões vinícolas, você conhecerá cidades e vilas relacionadas com a história da região.
 
Já estive na Borgonha algumas vezes. Dependendo da cidade de onde você vai começar a viagem, é possível adaptar o roteiro. Se sair de Paris, pode ir direto a Épernay ou Chablis, passar pelas cidades históricas e seguir para Beaune.
 
Se começar por Beaune, o roteiro é ao contrário.

Antes de iniciar, vou falar um pouco da história desta região.
 
Os Celtas, a quem os romanos chamavam de bárbaros, dominavam esta região desde 1200 a.C.
 
Para os romanos, esta região era chamada de Gália, e seu povo, os gauleses.
 
Os celtas / gauleses não tinham uma liderança única e definida. Era composta de várias tribos, e cada uma tinha seu líder.
 
Quando da invasão dos romanos no século I, algumas tribos se uniram tentando defender seus territórios. Contudo, a experiência, as estratégias, as armas e as táticas de guerra dos romanos fizeram a diferença. Os romanos acabaram conquistando todo o território e expulsando os gauleses.
 
Existem registros de batalhas entre gauleses e romanos em diversas cidades, mas duas delas, em Alésia e Challon on Champagne, foram as que mais se destacaram e ficaram registradas na história por terem sido decisivas.
 
Como os gauleses não dominavam a escrita, com o tempo sua cultura e história ficaram perdidas. Tudo que se sabe sobre eles é derivado de registros de outros povos, principalmente dos romanos.
 

Durante a dominação romana em 451 d.C., houve uma tentativa frustrada de Átila, rei dos hunos, que foi rechaçada por uma união de romanos, visigodos e francos.
 
Em 478 d.C., já enfraquecidos, os romanos foram batidos por Clovis I, que se tornou o primeiro rei do que seria no futuro a França.

Esta região ficou dividida por muito tempo entre França e o Ducado da Borgonha, até que, em 1478, o rei Luiz XI anexou a Borgonha ao território francês.

O passeio que estou sugerindo foi o que fiz recentemente saindo de Beaune e visitando em um só dia três lugares históricos.
 
Há a possibilidade de visitar uma outra cidade, mas vai depender do seu ritmo.
 
Só como recomendação, se for parar para almoçar, programe um almoço rápido, ou então leve água, frutas e sanduíches.
  

 
SEMUR-EN-AUXOIS

Saindo de Beaune pela rodovia pista dupla A6 em direção a Paris, após 30 minutos de estrada, a saída 23 tem a indicação de Semur-en-Auxois.

Saindo da autopista, há duas placas indicando a cidade. Sugiro ir pela estrada da segunda placa que vai dar na entrada principal, com uma vista das muralhas e das torres.
 
Diz uma lenda local que Semur-en-Auxois foi fundada por Hércules, quando voltava da sua passagem pela Espanha.
  
A história registra que a vila medieval foi fundada em 606 d.C. e partir daí não teve uma importância tão significativa.
 
Durante a Guerra dos 100 Anos, o Duque da Borgonha, Felipe, o Duro, que esteve lutando a favor dos Ingleses, tratou de fortalecer a cidade, as muralhas, defendendo seu território na luta contra os Francos.
 
Em 1478, com a anexação da Borgonha, a cidade passou para o domínio dos francos.
 
É uma vila medieval muito bonita e que vale a pena ser visitada.
  
O ideal é ficar no máximo duas horas, caminhando pela cidade, porque a beleza está nas casas, nos edifícios, nas ruas estreitas.
 
Há várias lojinhas e restaurantes super atraentes.

O caminho para as outras cidades históricas passa justamente por dentro da vila.
 
Confira no Google, Semur-en-Auxois e veja as fotos. Você vai querer conhecer.

  
Todos os anos, na última semana de maio ou início de junho, há um Festival Medieval, com festas e roupas típicas. Verifique antes pela internet a semana exata.
 

FLAVIGNY-SUR-OZERAIN
  
Seguindo o roteiro, saindo de Semur-en-Auxois vai direto para a vila medieval de Flavigny-sur-Ozerain. Fica muito perto, no máximo 25 quilômetros.
 
A primeira atração é a pracinha, a casa do Prefeito, a lojinha de chocolate do filme Chocolate, com Juliete Binochet e Johnny Depp.
 
Há uma indicação de estacionamento fora da cidade, mas dá para entrar de carro lá dentro e estacionar sem problema, próximo da pracinha do filme.
 
Historicamente foi uma vila muito importante. Hoje vivem lá não mais que 300 habitantes.
 
Fundada em 719 d.C., tornou-se um centro de peregrinação religiosa devido à história apócrifa de Santa Regina.
 
Segundo a lenda, no século III, ela resistiu aos abusos do então governador romano da Gália, Olibrius, e foi martirizada.
  
Seus restos mortais estão na Abadia local.
 
A cidade passou então a fazer parte do caminho de Santiago de Compostela.
 
Hoje, no entanto, já se sabe que esta é uma história apócrifa de Santa Margarida de Antioquiana Turquia, trazida por algum cavaleiro de uma das Cruzadas.
 
A visita a esta vila, para conhecer e fotografar, leva no máximo duas horas.
 

BATALHA DE ALÉSIA
  
Saindo de Flavigny-sur-Ozerain há uma pequena estrada direto para Alésia, também muito perto.
 
Alésia é famosa por ter sido o local da batalha em 52 a.C. de romanos comandados pelo imperador Julio Cesar e Marco Antonio contra o líder dos gauleses, Vercingetórix.
 
Nesta batalha, havia quatro gauleses para um romano, mesmo assim, com as armas e as estratégias de guerras, os romanos venceram.
 
Segundo a história, é a mais importante batalha de Julio Cesar.
 
A partir desta vitória, os romanos passaram a conquistar e dominar grande parte da Gália.
 
Esta batalha também inicia o fim da dominação dos gauleses nesta região.
 
A atração da cidade é o museu no local da batalha, com audiovisuais e um espaço externo para representações ao vivo, com caracterizações da época, da famosa batalha.
 
Os audiovisuais e as representações são feitas em horários específicos.
 
Pode acontecer de chegar lá e ter de esperar algum tempo para assistir.
 
No centro da cidade, há uma grande estátua de Vercingetórix.
 
O personagem de quadrinhos Asterix foi criado com base no líder gaulês.



ABBAYE DE FONTENAY

Abadia de Fontenay fica logo depois de Alésia, pela mesma pequena estrada que vem de Flavigny-sur-Ozerain.
 
É muito simples e bonita e vai levar no máximo duas horas para visitar.
 
Construída em 1118 por Bernardo de Claraval, que se tornaria São Bernardo, como um mosteiro da Ordem de Cister com o objetivo de ser um local isolado de reclusão de 300 frades, para uma vivência despojada de bens materiais. Ali produziam seu próprio alimento, sem ajuda de empregados e terceiros.
 
Abadia foi pilhada pelo rei Eduardo III da Inglaterra durante a Guerra dos 100 Anos.
 
Durante a Revolução Francesa, em 1789 os frades foram expulsos e a Abadia declarada um bem do governo.
 
Em 1852, foi considerado Monumento Nacional, mas, sem nenhum cuidado, ficou abandonada.
 
Em 1906, foi vendida a um banqueiro de Lyon, Edourd Aynard, que a restaurou totalmente e a colocou para visitação.
 
Em 1981, foi declarada Patrimônio Mundial pela UNESCO.
 
A Abadia de Fontenay pertence ainda hoje à família Aynard.

Como disse, é uma visitação de no máximo duas horas. Os prédios restaurados estão muito bem conservados. Não há nada de mobiliário ou objetos artísticos. É totalmente despojada.
 
Para mim, a maior atração foi uma pequena fundição onde os frades trabalhavam o ferro, fazendo ferramentas de trabalho, de agricultura e objetos para a cozinha, panelas, pratos, garfos, facas e outras mais.
 
Um pequeno riacho foi desviado para passar dentro da fundição para captação da água, e inclui uma roda d’água.
 
Há um roteiro sugerido de visitação que termina em uma surpreendente e muito bonita livraria.
 

Estes três lugares que sugeri são um passeio de um dia inteiro, com calma, apreciando a paisagem.
 
A partir da Abadia de Fontenay, as duas cidades a seguir seriam Chablis, que descrevi em post de junho, ou Troyes na região de Champagne, que será objeto do meu próximo post de agosto.
 
Há, no entanto, uma pequena e esquecida vila medieval, relativamente perto dali, que foi muito importante nos séculos XI e XII, mas que hoje está parada no tempo, Vézelay.
 
Como fica um pouco fora do roteiro, veja pela descrição que farei se vale a pena visitar.
 
  

VÉZELAY
 
Fica do lado esquerdo da rodovia A6 Beaune–Paris, na saída 22, Avallon–Vézelay.
 
É uma vila medieval com muralhas e uma grande igreja.
  
O estacionamento é fora da muralha.
 
A vila tem só uma rua com pequenos restaurantes e lojinhas dos dois lados.
 
A atração é a Basílica de Santa Madalena. Muito grande e desproporcional para o tamanho da vila.
 
Vézelay, no entanto, tem muita história, e isso a faz interessante.
 
A Basílica começou a ser construída em 850 d.C. como parte de um mosteiro beneditino.
 
A vila ficou conhecida quando o monge Baudillon trouxe da Terra Santa, na 1ª Cruzada, relíquias, pedaços de ossos, do corpo de Maria Madalena.
 
Em 1058, o Papa Stefano IX confirmou a autenticidade da relíquia.
 
Vézelay tornou-se um centro religioso de peregrinação.
 
A vila foi escolhida como o ponto inicial do Caminho de Santiago de Compostela, e a parada final de um outro caminho religioso, o Caminho de Cister, que se inicia na Abadia de Citeaux.
 
Quando da 3ª Cruzada, os reis Felipe Augusto, da França, e Ricardo Coração de Leão, da Inglaterra, marcaram de se encontrar com seus cavaleiros em Vézelay e de lá seguiram juntos para a Terra Santa, para libertar Jerusalém dos infiéis.
 
Bernardo de Claraval, frade cisterciense, que depois seria canonizado como São Bernardo, orou e conduziu um ato religioso, pedindo a Deus proteção aos cruzados.
 
Com o passar dos anos e dos séculos, Vézelay foi perdendo sua importância, mesmo porque outros centros religiosos foram sendo criados, à medida que outros cruzados retornavam com relíquias de outros Santos.
 
Aliás, várias cidades da França, Espanha, Portugal e Itália têm em suas igrejas relíquias trazidas pelos cavaleiros nas três Cruzadas.
 
No século XVIII, as relíquias de Santa Maria Madalena foram roubadas em Vézelay e provocou uma grande comoção na cidade na região.
 
Durante vários dias, foram feitas procissões, orações e pedidos para que fossem devolvidas. O que realmente aconteceu dois meses após.
 
Com isso, houve uma renovação e o aumento da peregrinação na vila.
 
Segundo alguns historiadores, foi uma estratégia da própria igreja local para reavivar o centro religioso.
  
Vézelay produzia vinhos tintos e brancos de boa qualidade, mas todos os vinhedos foram dizimados pela Phyloxera, praga que dizimou os vinhedos da França, Espanha, Portugal e Itália no século XIX.
 
A partir de 1970, muito recentemente os vinhedos voltaram, com uvas Pinot Noir e Chardonnay.

Já existe de novo um grande número de vinhedos ao seu redor.

A atração de Vézelay hoje é a visita à Basílica e à capela com o relicário contendo a relíquia de Maria Madalena.
 

Antes de ir, perguntei a um amigo se valia a pena conhecer. Respondeu que não, que era só uma grande e antiga igreja, nada mais.
 
Para mim, que sabia da história, teve um outro significado.
 
Como Vézelay fica um pouco fora do roteiro, vai depender de cada um visitar ou não.

  

Sempre que viajo, levo muito em consideração a história dos lugares.
 
Há alguns anos em Israel, o guia nos levou a um lugar comum, um vale com duas elevações de cada lado. À primeira vista, nada importante. Aí, então, ele falou:

"Este é o vale de Elah! Deste lado, estavam o hebreus, do outro lado os filisteus. Os filisteus tinham um guerreiro gigante chamado Golias..."
 
Naquele momento, este lugar ganhou um dimensão diferente para mim.



  
Estou à disposição para dúvidas ou dicas:miltonassumpcao@terra.com.br

Mapa de regiões vinícolas visitadas na França

  
Castelo na Côte D’Or próximo de BeauneSemur em Auxois com suas torres e igrejas
   

A lojinha do filme ChocolateIgreja e casa do Prefeito do filme Chocolate. No fim do filme o canguru corre por esta rua.
  
Exterior da Abadia de FontenayIgreja da Abadia de Fontenay
   
Fundição onde trabalhavam o ferroEstatua do lider gaulês Vercingetorix em Alesia 
     
Museu da batalha de AlesiaVista aérea de Vezelay
   

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