SOBRE UVAS, VINHOS E HISTÓRIA... VALE DO RIO DÃO... PORTUGAL


24 set 2015 às 11h57


Continuando minha viagem em Portugal após visitar várias vinícolas no Alentejo, antes de ir direto para a região do Dão, reservei dois dias para, no caminho, visitar alguns lugares bem interessantes e que, se puderem, eu recomendo.

Saindo de Estremoz pela N245 em direção Norte, após uma hora de carro, passando a cidade de Portoalegre, há uma entrada à direita indicando Marvão.

É uma região montanhosa e que faz divisa com a Espanha.

Marvão é uma vila no alto de uma montanha a 843 metros de altura, rodeada de muralhas e considerada no passado como "fortaleza inexpugnável".

Construída no século IX pelo dissidente árabe Ibn Marwan, que se rebelou contra o Emirato de Córdoba.

Foi conquistada por Afonso Henriques que a anexou a Portugal.

A vila tem só uma rua muita estreita,de direção única, que entra por uma porta da muralha e sai pela outra.

Em fins de semana e temporada não é permitido entrar de carro.

Como atração, as ruínas do castelo, muito bem conservadas e mantidas por uma ONG do local.

No mês de Outubro há uma celebração islâmica, com músicas e comidas árabes em homenagem ao fundador.

Há sempre eventos culturais e concertos musicais.

Há poucos hotéis e pousadas dentro das muralhas.

Eu me hospedei na Pousada D.Dinis, com os quartos com vista para a Espanha.

À noite veem-se luzes de cidades espanholas a trinta quilômetros.

Ao pé de Marvão, a vila de Santo Antonio das Areias, na beira do Rio Server,tem piscinas públicas e é um lugar para acampar e passar fins de semana.

A divisa com a Espanha fica a menos de cinco quilômetros.

 

BELMONTE – PEDRO ÁLVARES CABRAL

Após Marvão, continuando em direção ao norte, vale a pena conhecer Belmonte, a cidade natal de Pedro Álvares Cabral.

No museu dos Descobrimentos há muitas referências ao Brasil.

Há ruínas de um castelo que pertenceu a Família Cabral.

Na igreja de São Tiago, transformada em museu, estão os túmulos de membros da Família Cabral, e uma urna de pedra com partes dos restos mortais do próprio Cabral, retirada de seu túmulo na cidade de Santarém.

Cabral morreu em 1520 e foi enterrado em um túmulo provisório. Quando sua esposa Isabel de Castro faleceu foram ambos sepultados na Igreja de Santa Maria da Graça.

Em 1871, D.Pedro II iniciou um movimento para trazer para o Brasil os restos mortais de Cabral, para a catedral da cidade do Rio de Janeiro.

Em 1903, ao abrir a sepultura em Santarém encontraram restos mortais de oito pessoas, sendo cinco homens, uma mulher e duas crianças. As ossadas estavam misturadas. Não havia como identificar.

Como solução montaram dois esqueletos completos, e enviaram um para o Brasil e outro para Belmonte.

 

Uma das atrações de Belmonte é a antiga Sinagoga, recentemente restaurada.

Nesta região, após a expulsão dos judeus em 1497 por D.Manuel, uma comunidade judaica continuou mantendo suas tradições.

Muitos judeus foram embora do país, alguns se converteram em cristãos-novos, outros foram para localidades no interior e continuaram a professar em sigilo suas tradições.

Há hoje em Portugal, tours específicos para visitar antigas sinagogas espalhadas pelo país.

 

Continuando viagem em direção ao Dão, há de cruzar a Serra da Estrela.

Ali está “a torre”, o ponto mais alto do país, com 2.000 metros de altura.

Dá para chegar até o alto de carro. Lá em cima há lojas de produtos da região.

No Inverno essa parte fica, muitas vezes, coberta de neve.

Perto está a cidade mais alta de Portugal, Guarda.

E a vila mais alta, Sabugueiro, também conhecida pelos famosos cães da serra e o queijo de cabra.

 

No alto da serra há nascentes de dois importantes rios.

Próximo à cidade de Manteigas, a do Rio Zézere.

Do outro lado, no caminho da cidade de Seia, próximo do Hotel Penhas Douradas, a nascente do Rio Mondego, que depois passa dentro de Coimbra.

Penhas Douradas é um resort/spa no alto da serra, a 1.600 metros de altura.

Além das instalações completas de um spa, há trilhas e passeios pela região.

 

Tanto em Marvão quanto nas Penhas Douradas fora de temporada, a diária é de cerca de Euros $100, incluindo o café da manhã.

 

Na descida da serra, logo na entrada da cidade de Seia há um museu do pão, que se puderem visitar vale a pena.

De lá até a cidade de Mangualde no vale do Rio Dão, leva no máximo uma hora.

 

VALE DO RIO DÃO

Viseu é considerada a capital da Região Demarcada do vinho Dão.

A Comissão Vitivinícola Regional do Dão ajuda a controlar a produção, a distribuição e os negócios dos muitos produtores regionais.

O Solar do Vinho do Dão mostra e conta a história da região.

É uma cidade de porte médio, com um centro histórico muito bem conservado, com museus, igrejas e casario colonial.

Há um museu especial dedicado ao pintor do século XVI Grão Vasco.

Vasco Fernandes (1475-1542) conhecido por Grão Vasco, nascido em Viseu, é considerado o pintor quinhentista mais importante de Portugal.

O Rio Dão é só uma referência para a região, mesmo porque a maioria dos vinhedos não fica à sua margem.

Mangualde é a cidade que centraliza a maior parte da produção do vinho.

É de porte médio para pequeno, com boas opções de hotéis, sendo o Hotel Senhora do Castelo, que fica no alto da cidade, com uma vista panorâmica, sem dúvida a melhor opção.

Eu havia planejado ficar neste hotel, mas não fiz reserva, e quando cheguei na sexta-feira estava lotado.

Recomendaram-me e, inclusive, gentilmente telefonaram para verificar se havia vaga em um hotel/palácio na cidade de Penalva do Castelo,a 20 quilômetros de lá.

A Casa da Ínsua é um palácio do século XVIII, estilo barroco, construído por Luis de Albuquerque de Mello Pereira e Cáceres, Governador e Capitão-General de Cuiabá e Mato Grosso, depois que ele retornou a Portugal.

Em 2009, foi restaurado e transformado em um hotel.

O palácio mantém toda suntuosidade de época, as salas, os salões, as acomodações, os quartos bem amplos.

Há dois jardins ao redor, um estilo francês e outro inglês, com direito a duas sequoias.

Há um grande tanque com flor de lótus, um lago com dois cisnes, piscina e um pomar de frutas.

Apesar de ser um palácio, os preços são justos e variam por temporada.

Quando chegamos, solicitamos à recepção que marcassem visitas em algumas vinícolas.

Como era um fim de semana, muitas não estavam atendendo.

 

O Rio Dão passa bem perto de Penalva do Castelo e há várias atrações a suas margens, inclusive  uma ponte romana.

 

UM POUCO DA HISTÓRIA DO VINHO DÃO

Até meados dos anos 80, o vinho tinto do Dão reinava praticamente sem concorrência.

Os vinhos Grão Vasco, Meia Encosta, Caves Velha, entre outros eram dos mais consumidos.

Neste tempo, o Alentejo enfrentava a Reforma Agrária e o Douro ainda priorizava o Vinho do Porto.

Sem concorrência, passaram a produzir grandes quantidades e menos qualidade.

A partir dos anos 90 começaram a enfrentar problemas.

Alentejo e Douro começaram a produzir vinhos de ótima qualidade além de investir em distribuição e marketing.

Em pouco tempo, passaram a dominar o mercado, e serem mais reconhecidos em outros países.

 

CASTAS DO DÃO

Como nos outros lugares em Portugal, a variedade de castas é também muito grande.

Para os tintos, as mais importantes são Touriga Nacional,Jaen, Aragonez, Alfrocheiro, Tinto-Cão, Trincadeira, Rufete, Alvarelhão e Bastardo.

Para os brancos, as mais utilizadas são Encruzado, Malvasia-Fina, Bical, Barcelo, Cachorrinho, Verdelho e Uva-Cão.

Algumas destas uvas em outras regiões têm nomes diferentes, como Aragonez, por exemplo, que em outros lugares é chamado deTinta Roriz e Tempranillo.

Apesar de estar descrito nos rótulos a composição do blend, os vinhos são reconhecidos e escolhidos pelas marcas.

 

TOURIGA NACIONAL

Touriga Nacional é uma uva originária do Dão, utilizada no país inteiro e motivo de orgulho nacional.

Há informações que esta casta está sendo plantada e utilizada em outras partes do mundo.

Em conversa com o Presidente da Adega Cooperativa de Mangualde sugeri mudar o nome para Touriga Portugal ou Touriga do Dão, para identificar a origem.

 

VISITAS ÀS VINÍCOLAS

O Dão ainda hoje luta para recuperar o prestígio e a posição no mercado, mas continua a enfrentar dificuldades.

Conversei com o Antonio Rodrigues, que foi por 27 anos presidente da Adega Cooperativa de Mangualde, que me deu a seguinte explicação.

Na região do Dão há um número muito grande de pequenos produtores.

Só na Cooperativa de Mangualde são mais de 700 associados.

É impossível estabelecer controles e limitar a produção de cada um.

O pequeno viticultor busca produzir o máximo possível para poder tocar o negócio com lucro.

Assim acabam priorizando a quantidade sobre a qualidade.

Os vinhos Dão sempre foram identificados como intensos, fortes, encorpados,com uma tonalidade rubi, para serem consumidos com alimentos, de preferência nas refeições.

Diferente dos vinhos do Alentejo e Douro que têm sido mais leves, florais, aromáticos e que muitas vezes podem ou devem ser consumidos fora de refeições. Há vinhos destas duas regiões que, para melhor saborear, a recomendação é beber acompanhados de tira-gostos, como pão, queijos, salames e presuntos.

Um problema apresentado por Antonio Rodrigues, presidente da Cooperativa, é a dificuldade em convencer os associados a investir dinheiro em marketing.

Na última reunião, apresentei um Plano de Marketing para cerca de 700 associados e não foi aprovado!
São pequenos e médios produtores, gente simples do campo, e acham que é jogar dinheiro fora!
Por outro lado, no Alentejo e no Douro os grandes produtores se unem e fazem propaganda até na televisão!
Aqui vai ser muito difícil convencer esta gente!”

Com isso o vinho do Dão vai continuar a ser a terceira força no mercado.

Independentemente de tudo isso, é uma região a ser visitada, mesmo porque fica no meio do caminho entre Alentejo e Douro.

 

CASA DA ÍNSUA é também produtora de vinhos. Os lagares, os tonéis de carvalho, todas as instalações ficam junto ao hotel.

A degustação pode ser feita tanto lá como nas dependências do hotel.

Como era um fim de semana, fizemos a degustação no hotel, com o sommelier Paulo Fernandes, autor de um excelente texto sobre a produção do vinho no Dão.

 

A ADEGA DA CORGA fica no caminho de Mangualde por uma pequena estrada, rodeada por vinhedos.

É uma herdade familiar, com uma pequena produção de vinhos tintos de alta qualidade.

Fomos recepcionados por um dos proprietários Fausto Formoso.

Os vinhos para degustação são retirados diretamente das torneiras das cubas de aço inoxidável.

Se preferir, pode também fazer a degustação com vinhos das garrafas.

 

ADEGA COOPPERATIVA DE MANGUALDE fica na entrada da cidade, pela rodovia N234, Nelas – Mangualde.

A Cooperativa abriga cerca de 700 associados produtores.

No local não há produção, somente o armazenamento de vinhos em tonéis e garrafas.

Há um museu muito interessante contando a história do vinho na região do Dão, com fotos, ferramentas e pequenas máquinas da época.

Vários vinhos de marcas conhecidas fazem parte desta Cooperativa e estão à disposição para degustação.

Vale a pena visitar, principalmente pelo museu histórico.

Foram praticamente dois dias nesta região, um dia inteiro visitando vinícolas e um dia para Mangualde e Viseu.

 

Próximo destino, a região do Douro.

De Viseu à cidade do Pêso da Régua, as margens do Rio Douro pela rodovia A24, são exatamente 70 quilômetros.


 
Estou à disposição para dúvidas ou dicas:miltonassumpcao@terra.com.br

  

Fortaleza inexpugnável de MarvãoJardins e castelo em Marvão
   

Estátua de Pedro Alvarez Cabral em Belmonte

Urna com restos mortais de Cabral, Belmonte

    

Pastor de ovelhas no alto da Serra da Estrela

Vinhedo na região do Dão

   

Casa da Ínsua - Salões interiores

Casa da Ínsua - Mobiliário e decoração de época

   

Casa da Ínsua – Penalva do Castelo

Cisne branco na Casa da Ínsua

   

Degustação na Casa da Ínsua, com Paulo Fernandes

Degustação – Adega da Corga com Fausto Formoso

   

Rio Dão em Penalva do Castelo

Centro histórico de Viseu


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